De repente ao atravessar aquela porta de madeira pesada, me vi numa sala antiga. Um espaço quadrado, forrado de carpetes e tapetes. Prateleiras enormes que subiam até o teto estavam abarrotadas de quinquilharias, e a atmosfera era abafada e vermelha. Nada de janelas, não. Pelo menos eu não as notei.
Partículas de poeira dançavam sob a luz amarelo-pálida emitida pelas lâmpadas do candelabro; apesar da luz, a sala era escura, e tinha cheiro de livro velho e traça.
Não sei quanto tempo eu fiquei ali, parada, atrás da porta fechada, observando. Sei que fiquei tempo suficiente pra notar que havia uma poltrona verde-escura à esquerda e uma mesinha redonda ao lado, com um cinzeiro e dois livros de capa dura em cima.
Nenhum quadro, nenhuma parede nua. Apenas estantes e prateleiras cheias de livros, vidrarias, bibelôs, um globo terrestre, chaves antigas, garrafas de diversas formas, alguns tocos de velas gentilmente fixados em castiçais, latas decoradas de biscoitos amanteigados e de charutos.
Eu ainda estava sobre o tapetinho que dizia “bem vindo” quando notei que não havia ninguém na sala.
Uma sala sem dono, sem ninguém, sem sombras.
Somente eu e a poeira.
Dei um passo a frente, tão silencioso que quase pude ouvir as esferazinhas de pó levantarem do tapetinho e do carpete. Mas no fundo eu sabia que o barulho que eu ouvia era da minha real intenção, que pesava na consciência e aguçava os tímpanos.
Roubar algo. Roubar é uma palavra feia, não me considero uma ladra. Apenas dou uma chance a um objeto - escolhido por mim - de ter seu devido valor. É isso o que eu faço: valorizo.
Ignorei a consciência, e caminhei pela sala, a menos de dois palmos das prateleiras. Olhei de cima a baixo, vasculhei com os olhos, enxerguei além.
E para meu espanto, não foi um livro, e sim uma chave que me chamou atenção: cheia de arabescos e delicados detalhes. Era antiga, de material cor de cobre, do tamanho do meu indicador; tive a impressão de quase sentir seu cheiro de aço, me chamando, me convidando a tocá-la e implorando pra eu tirá-la dali.
Estendi o braço e quando eu estava quase tocando na chave, que estava um palmo acima dos meus olhos, deitada sobre uma prateleira, ouvi uma voz:
- Se você pegar alguma coisa, qualquer que seja, eles vão sentir falta.
Meu braço ficou paralisado no ar enquanto cada palavra entrava no meu ouvido. Não mexi nenhum centímetro do meu corpo, meu braço continuou congelado, como se alguém tivesse apertado o botão pause.
Senti o medo correr nas minhas veias, fazendo vibrar cada fibra dos meus músculos. Virei lentamente a cabeça para o lado esquerdo, porque, alguma coisa me convenceu de que a voz tinha vindo de lá. Quando virei, com o braço ainda imóvel no ar, e não vi nada além de poeira na luz amarelo-pálida, tudo começou a se desfazer.
Todas as prateleiras sumiram lentamente; os livros despencavam das estantes altas e desapareciam, antes de tocar o chão, feito fumaça. A vidraria se fragmentou em infinitas partículas numa explosão muda e fracionada. O teto se desfez, como um biscoito se desmanchando ao ficar muito tempo imerso em leite morno.
Mas eu ainda estava ali, assistindo tudo sumir, até que um baque surdo vindo da janela do meu quarto me forçou a abrir os olhos.
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os detalhes e o incomum.