Sobre memórias inanimadas

Num dia de verão qualquer, em baixo de uma árvore qualquer, você achou uma folha caída. Eu me lembro bem: estava quente e úmido. O ar estava parado e de vez em quando o vento soprava de leve, mas sem força suficiente pra levantar cabelos. Porém, com suavidade o bastante pra fazer as árvores sussurrarem.

Voltando à folha que você encontrou: ela estava tão, tão seca - tão consumida pelo sol - que só restaram suas nervuras.
Você tirou aquele esqueleto do chão, tomando todo o cuidado do mundo, como se ele pudesse se desfazer com um toque mal calculado.
Como se ainda estivesse vivo. Como se ainda estivesse verde.

Guardei aquela folha por muito tempo, dentro de uma caixa. Era a coisa mais linda que ja tinha visto; eu não fazia ideia de que uma folha verde poderia ficar daquele jeito depois de tanto tempo caída sobre o chão, perfurada, exposta à vida, morrendo aos poucos. Correndo o risco de ser pisada.
Ninguém repara nos detalhes. Ninguém se importa com folhas secas no chão, ninguém se importa em esmagá-las.

Mas este sobreviveu. Porque você reparou; você estava lá com seus olhos atenciosos e toda a sutileza dos seus gestos. Você salvou o detalhe essencial que compôs todo o momento, e, graças a esse detalhe, eu pude arquivar aquele dia em  mim. Um dia comum, que passou, mas que ficou impresso feito lembrança na superficie de uma folha seca.

A folha, afinal, secou tanto que quebrou, esfarelou. Não foi por falta de cuidado meu. Creio que foi só o tempo desmaterializando minha lembrança material daquele dia, como sempre faz com tudo. O tempo apaga tudo.
A memória, não.

Wednesday Feb 23 @ 07:24pm
tags: esquizofrenias textos leaf verdades | 10 notes

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